Eu em geral não escrevo “de ofício” mas sim sob provocação. Prefiro comentar eventos recentes ou assuntos “da hora”, o que torna a relevância do tema mais clara.
Por isso escrever sobre corrupção e violência é tão fácil no Brasil; é só esperar cinco minutos para que um caso de grande impacto desça sobre nossas cabeças.
Um desses foi o recente combate entre traficantes, traficantes e a polícia no Rio de Janeiro, em torno de um local conhecido como Morro dos Macacos. Digo “traficantes e traficantes” pois aparentemente o estopim da batalha foi uma luta pelo controle de “pontos comerciais” no referido morro, a saber, lugares onde entorpecentes (drogas, tóxicos, qual seja o nome preferido) são vendidos. Como bem se sabe, o crime organizado é composto de facções, bandos, organizações diferentes e mortalmente rivais. Uma das grandes fontes de violência em lugares como o Rio de Janeiro é a luta incessante de facções rivais pela supremacia (e não apenas o confronto entre tais facções e a polícia).
Em primeiro lugar, devo aqui expor meus pesares às famílias dos policiais e agentes da segurança pública que morrem nesses combates completamente desiguais. A polícia é vista como uma organização de segunda classe pela sociedade brasileira e a morte dessas pessoas é pouco notada, uma faceta cruel e nefasta da classe alta intelectualizada. Suas mortes não merecem passeatas nem são vistas como trágicas. Isso é revoltante.
Quanto ao tema em questão, esse tipo de violência que se observa periodicamente ilustra a olhos vistos o estado lastimável e absurdo da segurança pública no Brasil. Tal comentário não é nada novo, vem sendo repetido ad nauseam há varios anos. O que só faz aumentar sua relevência.
A segurança pública é dever do Estado e cada governo individualmente deveria tomar as mais sérias providências para atacar os problemas mais graves que a afetam. Um deles (talvez o principal) é o crime organizado.
É já notório que famosas quadrilhas e bandos criminosos se envolvem em uma ampla gama de atividades, raramente se especializando apenas em tráfico de drogas ou roubos a bancos, mas sim diversificando negócios nessas e noutras atividades, algumas até mesmo legais (ainda que de fachada). O crime organizado também se infiltra e se faz presente na própria estrutura estatal, comprando funcionários públicos (inclusive dentro da polícia e demais órgãos da segurança pública) e exercendo sua influência sobre a política e a administração de alto escalão.
Tenho certeza que uma das “dificuldades” em erradicar os bandos mais fortes da criminalidade seja exatamente essa interação entre agentes do estado e criminosos a qual, envolvendo figuras públicas proeminentes e atuantes, não pode ser trazida à luz; quantos governadores, prefeitos, senadores, não estão direta ou indiretamente envolvidos com esses bandos criminosos?
O debate em torno da segurança publica (do qual apenas recentemente tomei um conhecimento mais aprofundado) tem sido desenvolvido de forma bastante madura e profissional no Brasil, em tempos atuais. Duas características salutares que, a meu ver, se destacam, são o abandono de paradigmas dominantes até pouco tempo atrás e a assimilação de dados, métodos e teorias vindas do campo internacional. Não pretendo me alongar nesses pormenores, por isso cito apenas um exemplo de cada: por um lado, a revisão das típicas teorias sociológicas que dominam o pensamento brasileiro e abominam o combate repressivo à criminalidade, adotando uma postura vitimizante; por outro, a implementação (ou pelo menos a proposta de…) profissional de doutrinas policiais modernas em organizações defasadas e seu debate não só profissional mas também acadêmico.
Feitas essas breves considerações acerca de causas e soluções, pretendo abordar aqui duas das posições mais comuns defendidas por membros da sociedade civil em relação à esse tema. Ambas exprimem visões extremistas e, apesar de não ser um grande defensor do “caminho do meio”, tenho que admitir que uma postura média nesse caso parece ser a mais correta e coerente. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra.
A primeira posição, situada no pólo extremo da “esquerda”, é aquela que procura descriminalizar o bandido através da crítica genética (ou seja, pelas origens da criminalidade na sociedade capitalista) e comporta a típica importação pós-moderna de conceitos pacifistas (de origem religiosa). Além disso, identifica as instituições estatais de segurança pública (quando não todas as instituições estatais) com suas predecessoras do regime ditatorial vivido pelo Brasil entre 1964 e 1988, atacando-as por isso como veículos de ideologias nefastas e eivadas de ilegitimidade.
A crítica genética é apenas em parte relevante, uma vez que é essencial se conhecer causas para combater o fenômeno como um todo. Ela erra ao passar do material ao moral, ou seja, concluir que o criminoso é uma vítima já que sua origem é fruto de uma injustiça sistêmica. A mesma linha leva à conclusão de que não se deve combater o crime nem punir o criminoso, posto que é ele a vítima. O culpado seria “a sociedade”, que por sua própria constituição impõe a condição de marginal ao pobre e o faz criminoso.
Esse tipo de pensamento se embasa em grande parte na constatação de que a maior parte dos criminosos é composta de pobres, pessoas economicamente irrelevantes.
Há vários problemas com essa ideologia, a primeira é que ela não admite o combate à criminalidade da forma como a doutrina policial a enxerga. Ela prefere ações estatais mais amplas (o que, devo frisar, é não só salutar como essencial!) em detrimento das ações policiais. Mas é evidente que não se pode deixar de coibir e combater o crime no momento em que este ocorre ou, sabendo que ocorrá no futuro, naquele momento, o que compete ao aparato policial. Também não se pode admitir (uma incômoda mas inevitável conclusão dessa tese) que, por ser vítima de uma sociedade cruel e injusta, o criminoso tenha o “direito” inerente de fazer justiça com as próprias mãos e tenha a prerrogativa de “punir” os membros dessa sociedade por meios de seus atos criminosos “inocentes”, dos quais não pode escapar por estar indelevelmente atrelado por força de seu “destino” sócio-econômico. Seria então nefasto que uma mãe de família classe média hipócrita exigesse a punição de um miserável marginal(izado) que tenha cometido latrocínio contra seu filho ou estuprado sua filha, já que essa mesma família é reponsável direta pela “formação” e “marginalização” desse criminoso. Ela causou esse dano a si mesma.
Fica óbvio o caráter simplório dessa doutrina que nada mais é que revanchismo mascarado.
A segunda posição extremada, a da “direita”, se caracteriza (pasmem!) pela visão oposta: o criminoso é alguém que, com total controle sobre sua vida e tendo total discernimento conjuntural resolve, de caso pensado, cometer ilícitos de toda sorte como fins em si mesmos. A explicação para esse comportamento é personalizada e moralista, isto é, o criminoso é mau, vil, moralmente deturpado; o famoso “vagabundo”. Aliás, comete crimes por ser vagabundo e se recusar a exercer trabalho duro e digno como os outros “cidadãos de bem”. Estes, por serem “de bem”, tem a prerrogativa divina de defender seus menores direitos, privilégios e interesses usando os meios que mais acharem conveniente, em geral pelo emprego desproporcional de força bruta.
A posição da “direita” opõe o “bem” (o cidadão empregado parte do aparato sócio-econômico normal) ao “vagabundo” (o marginalizado que não ocupa papel de destaque em nenhum segmento social) pela estigmatização social e demonização pessoal; cultiva o ódio através de teses mambembes que visam classificar as pessoas, individualmente, como inferiores (o que facilita defender que este seja morto sumariamente ou sofra dentro de presídios).
A classe média brasileira, de notável conservadorismo político e ético, abraça esse tipo de pensamento com assustadora veemência, ilustrada na frase “bandido bom é bandido morto” (esta bradada aos quatro ventos até mesmo pelos mais zelosos cristãos, demonstrando mais uma vez a eficácia e o valor da religião na sociedade). O criminoso (bandido, vagabundo etc.) é uma ameaça aos seus direitos e privilégios (merecidos e legítimos ou não) e, como tal, sua própria existência não pode ser admitida.
Além disso, se faz presente outra vez a vontade mesquinha, tacanha e primitiva da vingança pura e simples, que sempre se caracteriza pela desproporcionalidade, irrazoabilidade e incoerência; pede-se o sofrimento eterno tanto ao estuprador contumaz quanto àquele que furtou uma lata de creme.
Em grande parte, deve-se dizer, esse tipo de pensamento é alimentado pela impunidade generalizada que se vê no Brasil e, também em larga medida, pela já citada escalada na violência dos criminosos, que não é combatida pelo governo. No entanto, isso não justifica sua irracional virulência.
O eventual leitor certamente reconhecerá a existência dessas duas posturas e provavelmente não se verá incluído em nenhuma tal como descrita aqui. Preferirá uma posição menos exagerada, talvez embasada nesta ou naquela outra doutrina, mas que ainda assim está situada mais próxima da “esquerda” ou da “direita”, já que estas exprimem princípios e valores fundamentais e não apenas opiniões superficiais sobre um tema (como a segurança pública). Acerca desses princípios falarei brevemente e tentarei expor a visão que me parece mais adequada, situada algo no meio das duas vistas acima.
Não acredito ser motivo de grandes contendas a explicação genética da criminalidade, nem a notória e inescapável observação de que a sociedade brasileira é injusta de forma praticamente inaceitável (praticamente, pois a aceitamos há séculos). Assim, fica por óbvio que a discrepância sócio-econômica, a marginalização dos pobres e a manutenção de privilégios sociais restritos aos ricos (a saber, se você está lendo isso você é rico, seja lá o que dizem seus pudores econômicos) é, de fato, uma das causas da criminalidade galopante no Brasil, e que tais devem ser dirimidas e combatidas sob pena de nunca ver resolvido o problema.
O que não é de nada óbvio é que o criminoso pobre vítima do destino não pode ou não deve sofrer as penas impostas pelo Estado Democrático de Direito. Ainda que vivamos de fato numa sociedade injusta, não podemos exigir impunidade a todos. Ao contrário, deve-se lutar pela punição legal de todos os que cometem crimes, seja rico, seja pobre. Esse movimento deve ser um tanto mais forte em prol do endurecimento para com os ricos, que gozam de uma nojenta rede de privilégios que, para todos os fins e efeitos, os tornam imunes ao cumprimento das leis.
Além disso, há a situação da polícia, que combate o crime, em geral, no momento em que ocorre. Ora, não se pode parar para avaliar a situação de renda de alguém visto em flagrante delito, muito menos procurar um entendimento lógico-dialético com um cidadão na iminência de disparar uma rajada de fuzil contra uma multidão indefesa (ou então com a própria multidão, quando não é indefesa e está sob os efeitos da irracionalidade de grupo). Nessas situações deve-se agir adequadamente e, para isso, deve-se treinar e adestrar as forças policiais a saber avaliar as situações e agir de acordo com cada uma. Aqui tanto a “esquerda” quanto a “direita” devem notar que há, sim, a hora de negociar, conversar e tentar uma solução pacífica (e não é sempre que tem que se chegar “metendo bala”) como há, sim, a hora de usar toda a força e violência que se tem em mãos (não sendo sempre possível ou mesmo desejável negociar e dialogar). O que AMBOS os lados devem perceber é que essas situações estão previstas em doutrinas policiais que versam sobre seu emprego apropriado, não sendo meras arbitrariedades.
A deficiência nessa capacidade de operar de acordo com as situações é observada em quase todo o aparato policial, dirimida apenas, e em parte, em reduzidas unidades de elite. Estas operam sob a égide de teorias consagradas no campo da atividade repressora, que vão muito além dos princípios “morais” de tal ou qual lado do debate para se ater à materialidade das situações. Erra aquele que acha que o policial é um repressor, um agente “da ditadura” que faz o que bem entende e tem “raiva” do criminoso e por isso o persegue; erra também o que acha que existem “direitos humanos” demais, que os criminosos não são combatidos com toda a força necessária.
O maior problema enfrentado hoje pela segurança pública é o crime organizado. Seu combate exige que a sociedade civil amadureça suas visões acerca do tema e parta para um sólido e implacável movimento de pressão às autoridades, cobrando delas medidas autênticas e fiscalizando sua execução. É apenas sob essa pressão que o envolvimento do crime no estado será revelado, para desespero de políticos e alívio do resto do mundo.